A crise da percepção

O filme “Ponto de Mutação”, comentado no blog algumas semanas atrás pelo navegante Caio, trata, principalmente, da chamada “crise da percepção”. De como não há  poucos setores responsáveis nem formulas mágicas para os problemas ambientais, e nesse texto uso “ambiente” no seu sentido mais amplo, que envolve também o aspecto social (provavelmente aspecto mais importante por sinal), o filme argumenta então que os problemas são frutos de uma crise da perçepção, decorrente, principalmente de prioridades erradas.

Uma hipótese brilhante, defendida por muitos autores sociais importantes nos dias de hoje, mas da qual discordo.

Para afirmar que estamos numa crise da percepção não seria necessário que já houvesse existido uma fase de “correta percepção” no passado? A história é em boa parte um estudo de atrocidades e colapsos da humanidade. Não quero que me considerem pessimista, pois estou apenas tentando ser realista, o fato é que nunca houve uma percepção da realidade social e ambiental que não fossem em pequenos núcleos sociais ou segmentos muito (mas muito) restritos no passado e no presente, ou seja, o que estão chamando de “crise da percepção” nada mais é que a própria percepção que sempre tivemos, esta sempre evoluiu, acompanhando o complexo conceito de cultura, mas não houve nenhuma mudança abrupta de sua realidade para classificarmos o estado atual como de crise.

Muito bem, mas se não nego a conjuntura cheia de incertezas, de aflições e de perigos que vivemos e que meu argumento nada mais é que epistemológico, qual sua validade prática? Bom…para falar a verdade eu não sei ao certo, mas posso salientar algumas.

Achar que estamos numa crise da percepção gera dois pressupostos errados: o que já existiu uma resposta e o de que a percepção deverá ser a mesma para todos.

Dizer que há uma resposta aos problemas atuais remete ao fato de que se estamos em crise em algum momento não estivemos, que significa que se recuperarmos o que se perdeu acharemos a resposta ao problema da percepção, mas nada foi perdido, continuamos os mesmos, precisamos CRIAR uma resposta, e não recuperá-la.

O pressuposto de que a percepção deverá ser a mesma para todos parece totalmente plausível com a visão ético-democrática dos dias atuais, mas a verdade é que embora estejamos todos no mesmo planeta, um planeta integrado em suas diversas regiões, este apresenta ambientes tão distintos e complexos gerando pressões tão específicas aos que lá estão,  que acreditar que existe um novo modo de se viver que se encaixe a todos eles é pura ilusão. Essa idéia remete ao tal “mito do desenvolvimento”, pois o planeta simplesmente não é capaz de suportar que todos os países adotem padrões de vida desenvolvidos, como já dizia Celso Furtado.

Infelizmente, as políticas nacionais parecem ir de pleno acordo com estes enganos gerados pelo mito da crise da percepção, por exemplo, nas negociações internacionais o Brasil, seguindo o discurso desenvolvimentista de que a transferência de tecnologia seria o meio mais eficaz para reduzir as disparidades entre os países insdustrializados e os em desenvolvimento, deixa claro que esse é o principal requisito para adotar medidas pró-ambientais. Ou seja, queremos adotar métodos que já se provaram ineficazes para conter os impactos ao meio ambiente,mesmo sabendo que a disvinculação dos processos produtivos e a inadequação às suas condições ambientais (social e cultural principalmente) são causa e expressão do subdesenvolvimento. Ao exigir a tecnologia dos países do norte não priorizamos o fortalecimento de uma capcidade científica e tecnológica própria, destinada a incrementar o potencial ambiental e o aproveitamento endógeno de seus recursos naturais (Enrique Leff).

E lembrem-se, boa parte das empresas internacionais continuam impactando tanto ou mais que antes, o que mudou foi que agora elas tem mecanismos para mitigar isso, mecanismos estes normalmente realizados em países em desenvolvimento, como em um gigantesco país tropical da América do sul, detentor da maior diversidade biológica do planeta, que por sinal, adotando tecnologias “exóticas”, pretende mitigar seus danos aonde?

~ por Gaudereto em 08/10/2009.

Uma resposta to “A crise da percepção”

  1. Gui, vc tá muito famoso! Digitei ”crise da persepção” no google e lá estava você.
    Em alguns anos terei que colocar (GAUDERETO, 2012) na minha referência bibliográfica!!
    Você é meu orgulho.

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