O Monumento à Estupidez

•14/08/2010 • Deixe um comentário

Não quero fazer discurso contra obras de infra-estrutura, principalmente hidrelétricas, mesmo porque não concordo com boa parte das críticas feitas, mas trago aqui um caso grave, conhecido internacionalmente como o “O Monumento à Estupidez”, capaz de influenciar negativamente (e muito) todos os seus investidores, principalmente o Banco Mundial, que após o fracasso passou a exigir Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e Relatórios de Impacto Ambiental (RIMA) às obras brasileiras financiadas por ele.

Escrevo sobre a hidrelétrica de Balbina, uma péssima obra de engenharia, um fracasso econômico, e um desastre social e ambiental. Certamente o pior empreendimento nacional da história e um dos piores do mundo (imagino se alguma obra tenha sido capaz de superar tamanha engenhosidade da estupidez).

A obra foi realizada durante o governo militar (1973-1989), e foi tão complicada e mal planejada que levou muito mais tempo e orçamento do que tinha sido previsto para ser concluída. Seu gasto foi de U$1bilhão, e isso foi apenas o valor que se consta nas estatísticas oficiais, certamente os gastos foram maiores visto outras obras semelhantes da época. E não devemos esquecer que na época um bilhão de dólares é uma quantia muito mais significativa do que hoje.

A usina se localiza no norte de Manaus e provavelmente foi idealizada para suprir a demanda de energia da zona franca da região. Mas a obra foi um fracasso tamanho que é incapaz de suprir até mesmo a demanda local. Teve potência instalada de 230Mw, mas potência Firme de apenas 130-150Mw (Potência firme é a potência que realmente é utilizada). Para efeitos de comparação Tucuruí tinha potência original de 4.500Mw e hoje tem 8.000Mw (em razão de troca de turbinas). Itaipu tem potências de 12.000 Mw.

Balbina foi construída em área de mata muito densa (madeira de lei), plana, tudo o que não se quer na obra de uma usina hidrelétrica. Absurdamente alagou uma área de 2600Km2. Tucuruí, que como já vimos, produz muito mais energia, teve uma área alagada de 2400Km2.Itaipu ilustra bem o que a engenharia busca para se construir um hidrelétrica, uma região com alta declividade e onde se possa “encaixar” a água de forma que sua área alagada seja profunda e não extensa. Claro que Itaipu também alagou uma área considerável, incluindo as lindas cataratas das 7 quedas, mas próximo da área de Balbina é quase pífio quando se analisa sua importância trinacional.

A comunidade científica da época fez vários alertas sobre a necessidade de se retirar a vegetação, que poderia ser vendida ou utilizada em obras públicas visto que valia bastante em virtude da grande quantidade da madeira de Lei presente ali, mas isso não foi feito, gerando uma enorme produção de metano (gás estufa 24vezes mais potente que o CO2) e o pior para uma usina, acidificando a água pelo processo de decomposição anaeróbico que gera sulfeto (responsável pelo cheiro de um  rio poluído como o Tietê e de ovos podres), o que pode causar o rompimento da usina, tragédia já ocorreu nos Estados Unidos. Para amenizar o problema foram abertas as comportas inferiores da usina (utilizada apenas para emergências), liberando boa parte da matéria orgânica, acumulada nos sedimentos no fundo do reservatório, para o rio onde se localiza a usina. Esse ocorrido foi responsável pela morte e extinção local de várias espécies de peixes, aumentando ainda mais o já enorme dano às espécies locais, o que  impediu por vários anos o trabalho de pescadores na região.  Hoje em dia a matéria orgânica ainda é muito alta visto que a madeira se decompõe muito lentamente (ainda mais madeira de lei), emitindo por hora 3,3ton de carbono equivalente por hora. A média de todo o sistema energético brasileiro (incluindo usinas termelétricas) é de 0,18ton de carbono equivalente por hora. Como se isso não bastasse a madeira de Lei alagada tinha tamanho valor que uma empresa oriental negociou com o governo uma iniciativa pioneira de corte subaquático, e a quantidade era tamanha que mesmo com os altos gastos para o corte da madeira a empresa ainda teve lucro!

Alagou-se também as terras indígenas dos índios  Waimiri-Atroari, que foram forçados a se mudar para uma região próxima, há hoje uma série de planos de fortalecimento da cultura Waimiri na região feitas pela usina, mas é um absurdo que ao se entrar no site da Eletrobras apenas isso seja abordado quanto ao histórico de Balbina.

Se já não bastassem tamanhos danos, provavelmente deixei o pior por ultimo, o dano social. Na sua construção a usina teve em média 4.000 trabalhadores, todos homens, que chegaram a uma região de baixíssima densidade, basicamente circundada por pequenas vilas de no máximo 2.000 pessoas. Com a chegada destes trabalhadores ocorreu uma enorme queda nos padrões de vida da região, com índices absurdos de prostituição, principalmente infantil, que em muitos casos foram forçadas e se subjugarem a esta vida pela própria família. Isso sem contar a explosão de problemas relacionados a drogas também associados ao surgimento deste tipo de “mercado negro”.

É um tema triste de ser abordado, certamente preferiria não ter que posta-lo, mas tamanha vergonha deve ser conhecida por cada cidadão brasileiro. Para os que querem saber mais sobre o assunto o autor Fearnrside realizou uma série de estudos sobre Balbina e Tucuruí.

Pedalar também é preciso!!

•18/07/2010 • Deixe um comentário

Acabei recebendo um convite para pedalar, e acabei conhecendo o blog, que, por sua vez, tinha este post com uma campanha para que as pessoas pedalem mais!

Mas também com estas vias separadas dá até gosto pedalar!!!

O mundo é feito de conexões, já dizia Capra!!

Esse post é fruto de uma grande conexão: e-mail+convite+blog(aikido+bike)+ ativismo cibernético+campanha para uma vida melhor…só faltam cheiros e flores de verdade para ocorrer a perfeição da virtualização do mundo!!!!rs

Como é bom ficar de férias e usar do ócio criativo!!

Vacinação

•05/05/2010 • 5 Comentários

Muito vem sendo falado sobre a campanha de vacinação contra o vírus H1N1, e é impressionante quanta bobagem falou-se em tão pouco tempo. São recorrentes as teorias conspiratórias sobre a vacina, sendo no mínimo 4 delas muito diferentes e independentes entre si.

É verdade que a indústria farmacêutica não é “flor que se cheire” (visto seu histórico comprometedor), mas é preciso ter senso crítico sobre o que chega aos nossos ouvidos, principalmente a respeito dessas teorias sem fonte alguma. A intenção do texto então é trazer uma informação muito importante a ser considerada ao se recusar tomar alguma vacina.

Em epidemiologia o “fenômeno do Iceberg” é um dos conceitos principais, que consiste no fato de que coletivamente sabemos muito pouco sobre uma doença, pois o número de pessoas diagnosticadas positivamente (doentes) é sempre muito menor do que o real número de infectados. Isso se dá em virtude de diagnósticos incorretos ou não realizados, e, principalmente, em razão dos infectados assintomáticos, que são aqueles que, por razões ligadas ao funcionamento de seu sistema imunológico, não manifestam os sintomas da doença.

Isso é ótimo para o indivíduo, pois significa que ele foi infectado, não manifestou sintomas e, em muitos casos, imunizou-se ao agente infeccioso. Mas coletivamente isso é um fato preocupante, pois apesar de não manifestar sintomas o indivíduo ainda pode ser portador do vírus e, portanto transmissor da doença. Sim, uma pessoa saudável pode ser transmissora de gripe suína, e é exatamente isso o que acontece em muitos casos.

Significa que os muitos jovens que deixam de se vacinar (para o que for), apresentam uma considerável chance de nunca manifestarem nenhum sintoma, afinal contam com o mais forte sistema imunológico da espécie. Mas são potenciais riscos às outras pessoas, principalmente àquelas com sistemas imunológicos mais sensíveis, como idosos e crianças.

Há pouco mais de um século a população mostrou resistência a uma vacina que conteria a epidemia de varíola no Rio de Janeiro. Resistência essa conhecida como “Revolta da Vacina”, que, obviamente foi decorrente de um contexto, pois a vacinação era compulsória, ou seja, as pessoas se deparavam com militares entrando em suas casas e obrigando a vacinação sem nenhuma explicação sobre a importância dessa medida preventiva. Mas diferentemente do passado, hoje há informação para a população!

A vacina passou por todos os testes pelos quais deveria e já mostrou sua eficiência na Europa, que na ausência da vacina já deveria estar em estado de epidemia. A intenção da vacina é proteger a população como um todo, portanto esses discursos de pessoas que simplesmente opinam contra algo sem ter argumentação coerente são totalmente infundados e infelizmente atrapalham o sucesso da campanha. Alguns indivíduos manifestaram efeitos colaterais, mas que são perfeitamente normais. Acredito que valha a pena arriscar-se a talvez desenvolver uma febre ou uma dorzinha (no diminutivo mesmo, porque da gripe mesmo é muito pior) por um ou dois dias, para evitar uma epidemia que nos assombre por um inverno inteiro. Então, não quer vacinar, muito bem, esse é um direito individual, mas não se esqueça que a sua decisão não deve considerar apenas a sua própria saúde, mas o de todas as pessoas, queridas ou não, que estão a sua volta.

As Chuvas no Rio de Janeiro e a Educação Ambiental

•13/04/2010 • Deixe um comentário

 

A tragédia aconteceu, uma chuva histórica caiu sobre o Rio de Janeiro, e levou ao colapso vários alicerces urbanos e sociais. Nunca se havia registrado uma chuva tão intensa no Rio de Janeiro, mas ela não era imprevisível, como não o são futuras chuvas de alta intensidade na mesma região e em muitas outras áreas de risco espalhadas pelo Brasil, tais como o litoral santista, certas regiões de Minas Gerais e as já famosas regiões de Angra dos Reis e do vale do Itajaí em Santa Catarina (2008).

Tamanha previsibilidade se dá exatamente por conta da imprevisibilidade das precipitações pluviométricas, que apresentam grande variação em sua concentração e em sua quantidade. O contexto que permitiu tamanho desastre acontecesse é complexo e elaborado, não pretendo, nem tenho condições de descrevê-lo aqui ou em qualquer ou lugar. Mas venho aos navegantes destacar a oportunidade que se fez com a tragédia.

Com o grande envolvimento da mídia, boa parte da população se sentiu envolvida ao drama carioca, e essa relação de identidade deve ser explorada em campanhas de educação ambiental. Pois, por mais que se argumente que a culpa é dos governantes e planejadores, o fato é que estes refletem as pressões exercidas por seus cidadãos, além de que eles se inserem nesse contexto de pressão por mudanças (se não hoje algum dia no passado).

A elaboração de laços de identidade entre o indivíduo e o meio ambiente é o principal objetivo da educação ambiental, pois ao criar relações entre o meio e o sujeito, a partir de premissas de igualdade e compreensão de seus ciclos, este se harmoniza (na medida do possível) ao complexo sistema natural e artificial em que está inserido, além de tornar-se um ator importante da E.A. pois se torna um multiplicador de seus fundamentos. Isso se dá porque além da influência direta que o indivíduo tem com as pessoas próximas, há também a influência indireta àquelas que simplesmente sentem as mudanças de hábitos do dito-cujo.

Tamanha tragédia talvez atraia grandes do setor de comunicações a abordarem os temas de maneira mais efetiva à absorção popular, como sua abordagem em novelas, filmes e programas de grande apelo. O que não compreendo por sinal, um desastre como o do rio é um piloto ou clímax perfeito a uma novela ou filme, como nunca foi abordado?

Para concluir o texto destaco novamente o papel de agente-multiplicador que cada um de nós temos, pois, mesmo sendo um conceito simples o de que nossas ações impactam os que estão ao nosso redor (mesmo que bem lentamente), ele é muito difícil de ser assimilado.

Atos – o espaço é sociedade.

•03/03/2010 • 2 Comentários

Dentre tantas confusões da sociedade paulista, a separação entre o espaço público e o privado se encontra no topo da lista. Desde os primórdios da nossa formação não houve uma boa diretriz para tais meios, pela escassez de recursos e até de pessoas, as moradias e as ruas se misturavam, como proteção ou mesmo pela falta de necessidade de se fechar.
Hoje como uma sociedade formada, não conseguimos ainda trabalhar com tais funções, temos uma cordialidade que quebra as relações publicas de alguns modos, como as hierarquias profissionais e até perante desconhecidos. Com o espaço público, praças, bares e banheiros, por exemplo, não damos o devido valor e por quê? Sentimos o espaço tão egoistamente nosso que não temos um cuidado para o grupo, ou por que não conseguimos ter uma relação real ao local, por sempre acharmos que alguém manda lá?
Atitudes do passado, hoje pesam na falta da identificação do papel de cada ambiente em nossas vidas.
Não se sabe onde se encontra exatamente a divisão dos direitos individuais e de grupo perante suas ações com o entorno e nas rodas sociais. Mas como melhorar, ou educar nosso olhar e atitude perante uma estrutura social e um espaço que há tempos administramos nessa indiferença discreta?
Ruim, não digo; gosto e admiro a atitude das pessoas muitas vezes, porém estas disfarçam as malicias e a malandragem, também uma tradição de tempos entre nosso povo.
O imponente tamanho de nossa cidade também abre espaço para que ocorram tais afastamentos entre as pessoas e o espaço, isso, devido a tantas opções de uso e lazer e a divergência de classes e gostos que em uma cidade como São Paulo não é citiável.
Nossas atitudes que se iniciam com medo, insegurança e egoísmo, escondem um plano social básico, que se todos tivessem mais consciência e compreensão do que é usar o espaço público, suas necessidades e seu significado, os primeiros sentimentos em relação a nossa cidade já seriam outros.
Vejo a introdução do estudo do espaço urbano e social em escolas como um rpimeiro passo para essa mudança; para se amar deve-se conhecer; para ser um cidadão deve-se inevitavelmente amar sua cidade, seu país.

Os Estágios da Morte de Kübler-Ross

•01/03/2010 • 2 Comentários

Já faz algum tempo desde que nós, navegantes, atracamos em ilhas isoladas e por lá ficamos sem mais compartilhar e buscar novos conhecimentos. Mas hora ou outra essa pausa haveria de acabar, como acaba hoje, e uma vez mais navegaremos em Iapetus, o oceano único e absoluto.

Frente a tantos desastres neste fim de 2009 e começo de 2010 recomeço nossa jornada falando um pouco sobre estados psicológicos em situações de morte.

Muitos devem conhecer, ou no mínimo já ouviram falar, dos 5 estágios da morte de Kubler-Ross, um modelo sintético, muito discutido, mas muito útil também,  que aborda 5 fases as quais aqueles que teem contato com a morte transcorrem.

O modelo é da psiquiatra Suíça Elizabeth Kubler-Ross (1926-2004), autora do livro On Death ond Dying onde apresentou o agora conhecido modelo sobre o luto.

Os estágios se manifestam no luto, na clareza da própria morte, ou em um desastre vivenciado. Alguns psicólogos e psiquiatras veem os estágios de Kubler-Ross, em maior ou menor grau, em praticamente qualquer notícia chocante e atormentadora pela qual o indivíduo se defronte.

Os 5 estágios são:

  1. Negação
  2. Raiva
  3. Barganha (essa se manifesta muitas vezes na religiosidade do indivíduo)
  4. Depressão
  5. Aceitação

O tempo o qual cada um permanece em cada estágio varia bastante, mas observa-se (como aprendi nos livro de Irvin D Yalom), que a maneira com que a pessoa lidou com a outra em vida (no caso do luto) é peça chave nesse processo. Viúvos/as que tiveram casamentos felizes tendem a passar pelos 5 estágios mais rapidamente do que aqueles com casamentos complicados e infelizes. Por quê isso se dá, eu imagino, varie bastante, mas de certa forma podemos supor que boa parcela desse processo inconsciente se de no fato de que em relacionamentos não tão bem sucedidos há uma sensação de perda maior, pois, não só a esperança, de que um dia o relacionamento do casal vá melhorar, acaba (sentimento muito ligado ao arrependimento da não execução de certas atividades com o falecido), mas também, o indivíduo associa como tempo perdido o período e a energia gasta para que o relacionamente voltasse a ser bom e proveitoso (ou mesmo que ele para que ele fique assim pela primeira vez).

E por favor, não confundam esse tipo de processo psicológico complexo, com coisas como “o segredo” e o universo conspirando para que pessoas felizes tenham mais facilidade dos que as infelizes.

Obviamente que o modelo é apenas uma teoria, muitas vezes classificado como simplista, e é totalmente plausível que o luto se manifeste de uma maneira “X” a qual essa teoria apenas deturpe o olhar do analista, ainda assim, seu generalismo, e a ordem de seu processo são bem interessantes e podem ser de grande ajuda às pessoas que tentam ajudar alguém que se encontra em algum dos estágios.

A Mensagem de Piratininga

•18/12/2009 • 1 Comentário

 

São Paulo de Piratininga, foi primeiro nome dado à maior metrópole da América do Sul, uma homenagem ao rio (de nome Piratininga) que com seu leito tortuoso destacava-se na região.

 O nome original de São Paulo traz em si uma mensagem básica aos que ali residissem,que, infelizmente, é ignorada por muita gente importante nos dias atuais, e não por falta de informações, pois trata-se de um conhecimento quase que inerente à espécie.

 Piratininga signífica “peixe seco”, remete aos períodos onde a água do rio transbordava de seu leito básico, aumentando a carga e a área, fazendo com que, ao voltar à seu leito normal, muitos peixes ficassem atolados no seu entorno, daí o nome “peixe seco”.

Curiosamente, a morte desses peixes atraía uma série de necrófagos, entre eles as formigas, que vinham em montes se banquetear nas margens do rio. Essa festa de formigas e outros insetos atraiam muitos tamanduás (dá pra imaginar que a região central de São Paulo já foi repleta de Tamanduás?), e esse típico mamífero brasileiro acabou renomeando o rio, que hoje se chama Tamanduateí, embora devo destacar que a origem desse nome gere controversas entre os historiadores.

Uma epistemologia interessante, abandonada na formação básica dos jovens e velhos cidadãos paulistanos, que mostra que desde  o pátio do colégio, os residentes desta região já têm o conhecimento de que rio transborda!

 O que fazer então com os milhões de paulistanos que hoje vivem em área de risco? No mínimo, estes devem ser alertados, muitos deles já vivem há gerações na região, sofrendo hoje pelo erro dos políticos no passado que permitiram a ocupação desordenada da cidade, e dos políticos do presente que insistem em impermeabilizar ao máximo todo a região da bacia hidrográfico em que São Paulo se insere.