Sobre o colapso maia e a sociedade moderna


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As civilizações maias expandiram seu território desde o oeste de Honduras ao norte da Península de Yucatan, não apresentavam uma unidade política como os incas ou os astecas, e eram dividida em muitas cidades e aldeias que viviam em complexos conflitos intermináveis.

Muitos conflitos são decorrentes da pobre agricultura na região, baseada em culturas domésticas, especialmente milho e feijão, tanto para as elites quanto para os plebeus o milho constituía ao menos 70% da dieta (como deduzido através da análise isotrópica de antigos esqueletos). Seus únicos animais domésticos eram o cão, o peru, o pato e uma abelha sem ferrão que produzia mel, enquanto sua fonte mais importante de comida silvestre era o veado e o peixe em alguns lugares. Contudo os poucos ossos de animais em sítios arqueológicos indicam que a carne era principalmente um luxo da elite.
Não se sabe quais técnicas os antigos maias usavam em sua agricultura, pois é surpreendente que num lugar tão limitado conseguissem manter uma densidade populacional tão grande, o valor exato é controverso mas variam entre 100 e até 580 pessoas por quilômetro quadrado!

A sociedade maia era basicamente de camponeses, pois um camponês só podia suprir 2 vezes a necessidade de sua família, sua agricultura era extremamente limitada, pois além de um grande déficit de proteínas (o milho tem um conteúdo protéico significativamente menor que o trigo e a cevada) o clima úmido da região tornava difícil armazenar o milho durante mais de um ano. Todo o transporte terrestre era feito nas costas de carregadores humanos. Essas limitações tornavam inviáveis campanhas militares de mais de uma semana, por isso os conflitos intermináveis que citei.

O Clima predominantemente era o tropical estacional, com 2 estações bem definidas, podemos descrever a região como floresta tropical sazonal ou deserto sazonal. Sendo a região mais ao sul mais úmida que a do norte, embora seja mais vulnerável as secas, provavelmente em razão de uma lâmina de água doce sob a península de Yucatan, em que a elevação da superfície aumenta de norte ao sul, de modo que, quanto mais ao sul mais a superfície se distancia de lençol freático.

Para o estudo do colapso o autor usa das bases da uma pequena mas densa cidade na região de Copán (oeste de Honduras), embora cada cidade seja um caso a parte, Copán ilustra bem as principais razões do ocorrido.

Os maias se desenvolveram principalmente nos vales de Copán, onde haviam 5 bolsões férteis, e suas colinas apresentam um solo menos fértil, mais ácido, mais pobre em fosfato e com inclinação maiores que 16% (o dobro da maior inclinação de uma auto-estrada padrão). Por volta de 650 d.C. a população já havia crescido tanto que passara o ocupar as encostas das colinas, mas tais lugares só foram cultivados por cerca de um século. A porcentagem da população total de Copán que estava nas colinas chegou a 41%, e então declinou vertiginosamente para se concentrar nos bolsões de vale original. Essa retração aconteceu pela erosão das colinas. Os solos ácidos e pouco férteis das colinas estavam sendo levados ao fundo do vale e cobrindo os solos mais férteis, reduzindo a produtividade agrícola.

A razão para esta erosão das encostas é clara: as florestas de pinheiro que antes cobriam e protegiam o solo estavam sendo derrubadas para serem usadas como combustíveis, construção ou fábrica de gesso. Tal desmatamento pode ainda ter resultado em um “seca produzida pelo homem”, pois as florestas tem um importante papel no ciclo das águas (vide São Paulo…..antigamente conhecida como cidade da garoa….). A região maia é historicamente conhecida por suas longas secas, e em 760d.C. teve-se registro a pior seca da história,com seu auge em 800d.C.

Além desses fatores é importante lembrar que a população de Copán crescia rapidamente enquanto as colinas eram ocupadas, o abandono dos campos nas colinas significa que o fardo de alimentar a população anteriormente dependente das colinas passou a recair sobre o fundo do vale, cada vez mais gente competia por menos terra, levando a disputas internas pelas melhores. Como os reis de Copán não conseguiam cumprir as promessas de chuva e prosperidade em troca do poder e luxo, estes sucumbiram em 822d.C., e seu palácio real foi incendiado em 850d.C. Em 950d.C. a população da região já havia decaído pela metade e por volta de 1250d.C. a região se tornou despovoada.

Esse é o chamado “colapso maia clássico”, mas obviamente não foi completo, boa parte da população sobrevivente migrou para outras regiões, tanto que centenas de milhares ainda encontraram e lutaram contra os espanhóis, por isso alguns historiadores não acreditam que ocorreu um “colapso maia”, mas isso parece ignorar o absurdo fato de que estes perderam de 90 a 99% de sua população no auge!

A sociedade Maia foi muito bem desenvolvida e seu colapso é decorrente de uma série de fatores e relações complexas, mas podemos dizer que a gota que fez a represa estourar foi a super-exploração da natureza numa época favorável, ignorando os ciclos naturais, o que fez com que quando o meio ambiente entrasse numa fase de maior fragilidade a sociedade não aguentasse seu próprio peso e implodisse.

E a sociedade moderna? Talvez estejamos em tempos de fartura, numa eterna expansão, e quando esse ciclo inverter? a globalização, com sua sociedade em rede, acaba com a possibilidade de fugirmos para outras terras nesse planeta, todos afundaríamos juntos. Estamos fadados, a como os maias, colapsarmos e vivermos com um pífio resquício do que já fomos?

Esse navegante acredita que sim, mas não perco o sono por causa disso, e pra falar a verdade, acho que esse é o destino de todos os seres vivos, pois todos evoluem, e evolução é o mesmo que mudança, não importa se vantajosa ou não para a espécie. A base do ambientalismo moderno, de que a Terra (Gaia) vive em equilíbrio, é lorota aos meus olhos, eles ignoram os grandes ciclos de destruição e surgimento. Ao invés de buscarmos esse equilíbrio irreal deveríamos é buscar a harmonia, para evitarmos que nós mesmos geremos nosso colapso! Esse deveria ser o foco da ciência, pois assim estaríamos mais perto de sustentar a genial frase de Brecht, que conheci num libro de Rubem Alves. “Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a miséria da existência humana”.

Ps: depois tento arrumar os erros gramaticais.
 
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~ por Gaudereto em 27/01/2009.

4 Respostas to “Sobre o colapso maia e a sociedade moderna”

  1. O homem é o único animal que conseguiu se distanciar e por fim sair totalmente de sintonia com o meio natural no qual foi concebido. O homem não mais quis pertencer à Natureza, e então fez com que “ela o pertencesse”…..assim, tomando uma posse autoritária até mesmo sobre aquela que sempre o possuirá…..
    Os recursos naturais são finitos.
    Fato.
    A arrogância humana não.

  2. Vejam bem, a sociedade moderna (moderna! vejam bem), tem claramente algumas vantagens sobre as tecnologias maias de agricultura. Cada vez mais o homem moderno é capaz de modificar o seu entorno, e essa á uma das maiores capacidades do homo sapiens e que o diferenciam determinantemente dos seus irmãos primatas.
    Quando um solo é exaurido, contaminado ou ressecado, somos capazes de corrigi-lo.
    Com o auxílio de boas técnicas de armazenagem, conseguimos guardar produtos mesmo em ambientes pouco apropriados para tal.
    Com as gigantescas naves cargueiras podemos levar e trazer grandes quantidades de alimentos de um lado para outro do globo.
    Estamos vulneráveis a um colapso, bom todos os americanos acham que sim. Eles adoram filmes catástrofes onde o clima muda em seis meses, ou com a chegada de aliens dominadores, ou com o mega terremoto na falha de San Andreas, ou com a estrtela da morte, emfim, qualquer baboseira dessas. Mas sintam na pele, na prática, no dia a dia, parece que estamos a beira de um colapso? talvez financeiro muito mais que ambiental. Mudanças significativas em escala global são (muito) pouco prováveis em uma escala de tempo de uma vida humana.
    Sobre depleção de recursos, o que eu acho é o seguinte, os grandes “players” dos mercados globais de commodities acham bom quando sai uma estimativa dizendo, por exemplo, que o cobre vai acabar em 20 anos, porque isso faz subir a cotação do cobre na Bolsa de Metais de Londres, o que eles não falam para não deixar as cotações cairem é que essa estimativa é feita baseada em dados dos estoques CONHECIDOS e ATUAIS, e não leva em consideração a possibilidade de diminuição de demanda por substituição, descobrimento de novas jazidas, confirmação de estoques calculados, melhorias dos processos aumentando a eficiência de extração etc. Eles fazem as geosondagens e conhecem muito mais que nós, e que seus próprios concorrentes, isso é informação confidencial interna das “companhias” e nós não temos acesso.
    Sobre a “crise dos alimentos” que tanto se alardeou a alguns meses atrás, não parece estranho que ela tenha desaparecido de repente? Não será interesse de grandes plantadores de soja que isso seja difudido para que os preços da soja aumentem? Ou grandes latifundiários para que suas terras, (improdutivas) sejam valorizadas? Será mesmo que está faltando espaço para plantar? Aqui no Brasil com certeza não. (sem derrubar nenhuma árvore)
    Os recursos são finitos.
    Fato.
    A criatvidade humana não.

  3. A frase final talvez apresente uma idéia implícita a qual muitos caras do mundão capitalista se baseiam para a permanência do homem na terra: a idéia de que se o homem conseguir amenizar as desigualdades sociais, o consumo irá aumentar; o consumo aumentando, haverá maior depleção dos recursos e, consequentemente, menor disponibilidade de recursos aos países maravilhosos e perfeitos do perfeito e maravilhoso primeiro mundo.
    E não duvido muito que neste meio ambientalista há um certo número de pessoas que pensam assim, afinal, poderiam dizer: os mais fortes sobrevivem…estão adaptados na terra, e, para que isso continue, alguns deverão sumir. (isso não lembra Hiltler??)

    PS. a cultura maia sempre me deixou meio fascinado. Bem interessante o texto aí, Guilherme!

  4. Guil,
    muito bom esse resumo. Conseguiu sintetizar esse grande capítulo do livro.
    Acho interessante contrapor essas informações com conteúdo histórico, buscando outras fontes para verificação, o que vc acha?

    Parabéns pela frase final, ótima, resume bem o que esta navegante também acha sobre a ciência.
    Será q alguns dos professores também pensam assim?
    …rs

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